O que se faz agora?, Ferdinando pensa, O que se diz agora?
Senta ao lado dela, à esquerda dela na beirada da cama e ali fica parado, olhando para o teto branco, fazendo companhia à irmã, fazendo companhia à sua dor, pois crê que a dor é assim: ela existe e palavras não a aplacam. Seja ela em razão da briga com um amigo, seja ela em razão de uma perda ou decepção, não tentemos menosprezá-la com palavras: quase uma conduta para Ferdinando.
Mas Ferdinando gosta de abraços. Esses sim ele crê servirem para algo.
- Chega, não quero falar sobre isso. – diz Silene
É a senha para Ferdinando tascar um abraço na irmã.
O Globo Esporte faz parte da minha infância, quando nas férias escolares acordava só na hora do programa já com a musiquinha tocando na hora do almoço. Ainda hoje assisto quando posso para ver as notícias do meu time, por mais que pela internet já saiba de tudo que noticiarão.
Hoje certa irritação me acometeu ao assistir a edição desta segunda-feira dia 7. O programa ganhou força com a presença de Ronaldo Angelim. Ao lado dos apresentadores Glenda Koslowski e Alex Escobar, foi notável a emoção do zagueiro ao se deparar com a surpresa que haviam preparado para ele: imagens de sua família no Ceará comemorando o título e homenageando o membro ilustre. Neste momento, Ronaldo Angelim chorou indisfarçadamente, e não era por menos que isso que a produção do programa devia esperar. Como é de praxe em outros programas, depois da emoção sempre deve vir um comentário daquele que se emocionou. Mas desta vez não.
Angelim estava tão sinceramente emocionado que não conseguia falar qualquer coisa, e, mais do que isso, não havia nada a dizer. Naquele momento, ao assistir os familiares, ele era choro, orgulho e memória. A apresentadora Glenda Koslowski deu a deixa para o comentário do emocionado: “A gente imagina o filme longo que passa na sua cabeça”, e acrescentou: “bem longo, não é?”. Ao dizer essa parte final ela estalou os dedos, num estalar que significou menos “tanto tempo…” e mais “vamos lá, fale algo, homem, conte sua história!”. Angelim baixou a cabeça e balbuciou um “Não consigo falar.”.
Restou então à apresentadora dar-lhe mais uma vez os parabéns pelo título, não sem certo constrangimento e, ao perceber que o roteiro do programa havia sido quebrado, recorreu a Alex Escobar com um ínfimo “Né?” que queria dizer tudo e nada ao mesmo tempo. O apresentador então inseriu um assunto já batido sobre a briga entre Flamengo e Sport sobre o campeonato de 1987, tentando ganhar tempo para que Angelim se recompusesse e pudesse dar um depoimento que fosse ali no ar. Ao final do seu comentário, Escobar deu mais uma vez parabéns ao Flamengo e enveredou por um papo sobre o assunto da briga de 87 com Glenda, um papo que parecia mais uma conversa paralela de escola quando a gente sabe que o mais importante está acontecendo em outro lugar.
Findada essa curva, o apresentador ainda quis saber: “Tá mais calmo, Angelim?”, e deu uma ligeira risada como quem ri de uma criança que não sabe como a contenção é importante no mundo adulto. Depois disso Glenda tentou “reanimar” o jogador falando do gol do título, feito por ele, seu único gol no campeonato, e Angelim se pronunciou baixinho: “Só um.”. Aí Glenda tentou preencher o vazio que a falta de discurso pronto de Angelim deixou com frases levianas de sociologia pisada e repisada: “É a trajetória de um brasileiro típico, do suor do dia a dia…”, como que sublinhando a história da vida de Ronaldo Angelim, uma história sobre a qual ele não deu um pio.
O fantástico na TV é que ela tem seus melhores momentos quando a coisa não acontece como queriam que acontecesse.
- Você devia mandar consertar esse chuveiro, Pascoal, não dá nem pra se molhar direito, um filetinho de água. - Hélio de pé, as mãos na cintura, os polegares se apóiam na sunga branca, os polegares dentro da sunga. Ele espera por uma reação de Pascoal. A reação não vem. – Você ouviu o que eu falei?
- Ouvi Hélio, eu já falei com o cara, no meio da semana ele conserta, beleza?, agora dá pra sair da frente do meu sol ou tá difícil?
Pascoal mente, não falou com cara nenhum, não tem vontade de falar com cara nenhum, se pudesse ele mesmo ia lá e consertava o chuveiro, mas se fizesse isso, como morador, não seria pago, e tem uma pessoa que trabalha no prédio que é paga pra isso – ela faz e é paga, entende? – eu não faço, não me pagam; não quero falar com um cara desses, pago pra que consertem os chuveiros.
Os livros - junto!: dois me leram/Tive quando fiquei caído/Amarelado, corrido no taco/Tábua corrida/Rrida (?)/Caramujo, marujo tem cara/tem cara não/tecido escorrido nela/torcido na mão/enxugado o batráquio/é isso que tem//Noite dura, pescar - quando foi?/Inteiro de proa, de popa, de./Funciona quebrado não,/Nhônhô./Basta, já basta/Inteiro, faltando buraco/Faltando problema./Funciona./Me leram/os dois./Eu livros os li./
Ferdinando quando estava a pensar muitas vezes era interrompido por gritos violentos que berravam contra jogadores de futebol. Berrar contra jogadores na televisão, que tipo de gente faz isso? É gente que se engana, gente que erra na vida. Os jogadores nunca escutarão. O berro muita gente ouve, mas quem está na televisão não ouve.
Ferdinando imaginava berros de um vizinho mais cônscio: Não destruam os botões do elevador!, Não rabisquem a parede alheia!, É hora de fazermos coleta seletiva!, Não roubem quadros do hall social!
Se fosse esse o tipo de mensagem que o vizinho passasse com seus berros, Ferdinando não se incomodaria tanto de ter seus pensamentos interrompidos.
É um problema de paredes, pensava, as paredes são muito finas, é um problema de projeto.
Esta é a opinião de um amigo meu, mas sempre que ele me diz isso eu digo a ele que não o faça, pois bestas são animais, e até onde sei animais não podem juntar letrinhas.
Ele me diz que eu sempre acho tudo pior do que realmente é, e que eu sempre digo qualquer coisa só para discordar de tudo.
Com tipos como esse que pensam estarmos a criar e dizer o pior, nunca podemos concordar.